Brasil reage às tarifas dos EUA com novas exportações
China, Europa e Índia impulsionam vendas e reduzem a dependência do mercado americano.
Publicado em 24 de julho de 2026, 18:23 — Em São Paulo

As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros reduziram as exportações para o mercado norte-americano, mas não impediram o avanço do Brasil no comércio internacional. Ao contrário: o crescimento das vendas para China, União Europeia e Índia foi suficiente para compensar, com ampla margem, a retração registrada nos Estados Unidos.
Dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) mostram que, no primeiro semestre, as exportações para esses três mercados cresceram R$ 16,1 bilhões, enquanto as vendas aos Estados Unidos recuaram R$ 2,6 bilhões. Na prática, para cada real perdido no mercado norte-americano, mais de seis reais foram incorporados às exportações destinadas aos principais parceiros comerciais do país.
O resultado reforça uma mudança na estratégia do governo federal diante do cenário de disputas comerciais. Em vez de concentrar esforços na recuperação do mercado norte-americano após a adoção de tarifas pelo governo do presidente Donald Trump, a política comercial brasileira passou a priorizar a abertura de novos mercados e o fortalecimento das relações com economias de maior dinamismo.
Essa reorientação ganhou força por meio da intensificação de missões diplomáticas, negociações internacionais e ações voltadas à ampliação do acesso de produtos brasileiros a novos destinos. Ao mesmo tempo, o Mercosul voltou a ocupar posição estratégica nas negociações comerciais conduzidas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, funcionando como plataforma para acordos com outras regiões.
Os reflexos dessa estratégia também aparecem entre as empresas apoiadas pela ApexBrasil. Das cerca de 2,4 mil exportadoras que mantinham negócios com os Estados Unidos e receberam suporte da agência, aproximadamente 72% conseguiram ampliar as vendas para outros países ou conquistar novos compradores. O movimento permitiu reduzir a dependência do mercado norte-americano e preservar parte das receitas diante das restrições impostas pelos Estados Unidos.
Para acelerar esse processo, a ApexBrasil anunciou um investimento de R$ 130 milhões destinado à internacionalização das empresas brasileiras. Os recursos serão aplicados em ações de promoção comercial, participação em feiras internacionais, missões empresariais e prospecção de clientes no exterior. O programa também prevê apoio para certificações, adequação às exigências sanitárias e aperfeiçoamento da logística, fatores considerados decisivos para ampliar a competitividade dos produtos brasileiros.
Grande parte desse esforço está concentrada na Ásia, região que reúne alguns dos mercados com maior ritmo de crescimento econômico. Além da China, principal destino das exportações brasileiras, o governo busca ampliar a presença em países como Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã, cuja expansão do consumo abre espaço para produtos ligados ao agronegócio, energia, infraestrutura, tecnologia agrícola e indústria.
A estratégia alcança ainda mercados menos tradicionais. Países da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão, passaram a integrar as ações de promoção comercial em razão do crescimento acelerado de suas economias e do aumento da demanda por importações. Segundo a ApexBrasil, algumas dessas nações registram expansão do Produto Interno Bruto entre 7% e 8% ao ano, desempenho superior ao observado em diversas economias maduras.
Na Europa, o foco combina negociações institucionais com iniciativas de promoção comercial para ampliar a presença de empresas brasileiras em um mercado considerado estratégico tanto pelo volume de consumo quanto pelo potencial de diversificação das exportações. Paralelamente, o governo também busca avançar nas negociações conduzidas pelo Mercosul com parceiros asiáticos, Canadá e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).
A política de abertura de mercados tem sido acompanhada por uma atuação diplomática mais intensa. Desde o início do terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou a participação do Brasil em fóruns internacionais, retomou o diálogo com diferentes parceiros comerciais e intensificou negociações para reduzir barreiras sanitárias, ampliar o reconhecimento de certificações brasileiras e habilitar novas empresas para exportar.
Os resultados divulgados pela ApexBrasil indicam que essa estratégia já produz efeitos concretos. Embora as exportações para os Estados Unidos tenham sido afetadas pelas tarifas, a expansão das vendas para outros mercados compensou com folga as perdas e reforçou a presença brasileira no comércio internacional.
Mais do que uma resposta às restrições impostas pelos Estados Unidos, a diversificação dos destinos de exportação passa a ser tratada como uma política de longo prazo. Ao ampliar a presença em diferentes mercados, o Brasil reduz sua vulnerabilidade às decisões de um único parceiro comercial, fortalece a competitividade das empresas nacionais e cria condições para sustentar o crescimento das exportações em um cenário internacional marcado por disputas comerciais e rearranjos geopolíticos.
Redatora: Amanda Mendes



